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Trabalhadores relatam jornadas de 15 horas e alojamentos precários em canavial de Cabo Frio, onde 67 foram resgatados

Auditores-fiscais do Trabalho resgataram 67 pessoas que cortavam cana em Cabo Frio, na Região dos Lagos, em condições análogas à escravidão. A usina pagou as verbas rescisórias e custeou o retorno dos trabalhadores aos estados de origem.

Trabalhadores relatam jornadas de 15 horas e alojamentos precários em canavial de Cabo Frio, onde 67 foram resgatados
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Um dos 67 trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão no corte de cana-de-açúcar em Cabo Frio, na Região dos Lagos, contou ao g1 como era a rotina do grupo.

Segundo os auditores-fiscais do Trabalho, a jornada chegava a 15 horas por dia. Os alojamentos tinham insetos e roedores, e o abastecimento de água era inadequado. Parte dos trabalhadores estava no local desde junho.

“A gente tava pedindo socorro a cada momento, pedindo para que alguém pudesse nos ajudar, porque a situação não estava fácil”, disse.

Após receber denúncias, auditores-fiscais estiveram no local em 21 de setembro e constataram jornadas exaustivas e condições degradantes.

A fiscalização determinou a paralisação imediata do corte de cana. Os 67 trabalhadores foram ouvidos e, na quarta-feira (30), foram enviados às cidades de origem, com custos pagos pela empresa. Eles vieram de estados do Nordeste e de Minas Gerais.

Um dos resgatados, natural de Pernambuco, afirmou que a realidade encontrada era diferente da prometida no recrutamento. Em vez de moradia na cidade, o grupo foi colocado em uma área isolada.

“A situação estava muito feia, complicada, a gente corria perigo lá! Tinha senhorzinho de 59 anos, 58 anos com a gente, não estavam mais aguentando. E, graças a Deus, estamos indo pra casa, né?”, disse.

A fiscalização apurou que os pagamentos atrasavam e que os valores, fixados diariamente pelos intermediários, costumavam ficar abaixo do que havia sido combinado. Segundo os auditores, os trabalhadores não entendiam como os cálculos eram feitos.

Os contratos estavam em nome dos chamados “gatos”, apresentados pela usina como empregadores. Para os auditores, esses intermediários não tinham condições financeiras de assumir tal responsabilidade e atuavam apenas como fornecedores de mão de obra.

De acordo com os relatos, a promessa feita no recrutamento incluía alojamento perto da cidade e pagamento acima de R$ 1 por metro de cana cortada.

O isolamento dos alojamentos dificultava o acesso a compras, saques, lazer e atendimento médico. Os trabalhadores afirmaram que não havia transporte público regular na região e que o empregador não disponibilizava veículo.

“A gente se reuniu, comecei a procurar ajuda, tentar ligar pro pessoal pra ver se ajudava a gente”, afirmou um dos cortadores de cana.

Nas frentes de corte, os auditores encontraram problemas que não tinham sido citados na denúncia, como ausência de instalações sanitárias, de material de primeiros socorros e de estrutura para as refeições.

“Os trabalhadores apoiavam as marmitas nas pernas ou nas mãos, muitas vezes sob sol intenso. Eles realmente normalizaram essa falta de estrutura na frente de trabalho”, afirmou um representante da fiscalização.

Quando concedeu o depoimento, o trabalhador pernambucano já estava a caminho de casa, ansioso para reencontrar a família.

“A gente tá feliz que tá indo pra casa. Não eram as promessas que eles falaram pra gente, foi diferente”, disse.

Em nota, o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que a empresa firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Pelo acordo, ela se comprometeu a contratar serviços somente conforme a lei e a não manter trabalhadores, direta ou indiretamente, em condições análogas à escravidão, o que inclui trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes ou restrição de liberdade por dívida.

A empresa também assumiu o compromisso de não aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher trabalhadores com ameaça, violência, coação, fraude ou abuso para submetê-los a servidão ou condições análogas à escravidão.

O TAC prevê ainda que a usina não contrate terceirizadas que recrutem pessoas fora da localidade de trabalho por meio de fraude ou cobrança de valores, ou que não garantam o retorno dos trabalhadores ao local de origem.

Segundo o MPT, os contratos foram rescindidos com acompanhamento dos auditores. A usina pagou cerca de R$ 335 mil em verbas salariais e rescisórias e custeou o retorno do grupo aos estados de origem.

A fiscalização também emitiu as guias de seguro-desemprego. De acordo com o representante ouvido, cada trabalhador terá direito a seis parcelas de um salário mínimo.

O grupo passou a ser acompanhado pela Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, que oferece assistência social e atendimento psicológico no âmbito do Projeto Ação Integrada, mantido pelo MPT.

Em nota, a Lagos Bioenergia – Agrisa afirmou que os trabalhadores eram empregados de empresas terceirizadas e não faziam parte do seu quadro próprio. Após tomar conhecimento das suspeitas, a companhia disse ter colaborado com as autoridades, rescindido os contratos com as prestadoras envolvidas, pago as verbas e encargos devidos e providenciado o retorno dos trabalhadores.

A Agrisa informou que está revisando seus procedimentos de contratação e fiscalização de prestadoras de serviços, declarou repudiar práticas que desrespeitem a dignidade e os direitos dos trabalhadores e disse permanecer à disposição das autoridades.

Denúncias de trabalho em condições análogas à escravidão podem ser feitas de forma anônima pelo Sistema Ipê, da Secretaria de Inspeção do Trabalho, desenvolvido em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Fonte original: https://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/2026/10/02/usina-de-cana-de-acucar-assinou-termo-de-ajustamento-de-conduta-em-cabo-frio-a-gente-estava-pedindo-socorro-contou-trabalhador.ghtml

[Texto reescrito automaticamente — revise antes de publicar]

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